solidão das mulheres negras

Mulheres de 10 anos ou mais de idade, segundo o estado conjugal, o sexo, e a cor ou raça

Dados do Censo 2010 do IBGE

Dados%20sobre%20a%20Solid%C3%A3o%20das%20Mulheres%20Negras.png

A primeira tabela, a contar da esquerda, nos dá o total de mulheres que viviam, ou não viviam, em união, por ocasião do censo de 2010. A segunda tabela nos dá o mesmo dado, em percentuais. É fácil de ver que o percentual de mulheres que não viviam em união é maior entre as negras (pardas e pretas, na nomenclatura do IBGE) do que entre as não negras (brancas e amarelas). É interessante notar que o percentual é diferente para as pardas e as negras (há um continuum, de 50% para as brancas e amarelas, para 52% entre as pardas e 54% entre as negras. A acreditar na ideia de que não há diferenças reais entre pardas e pretas do ponto-de-vista sociológico, ou existe uma discriminação entre pretas e pardas na preferência matrimonial masculina, ou o casamento "branqueia" as mulheres).

A terceira e a quarta tabelas mostram os mesmos dados, mas para os homens. Nota-se a desproporção; os homens vivem em união mais do que as mulheres. A explicação óbvia é que os homens vivem menos do que as mulheres, havendo portanto um grande excesso no número de viúvas sobre o de viúvos. Essa desproporção é maior entre homens e mulheres pretos, e menor entre homens e mulheres indígenas (caso em que é quase insignificante) e homens e mulheres pardos (o único grupo, aliás, em que os homens que não viviam em união predominavam sobre os que viviam em união). No caso dos indígenas, a desproporção menor provavelmente tem a ver com as condições de vida específicas do grupo, em que a transição demográfica ainda está no começo. Quanto aos pardos, um fator complicador é que se trata de categoria híbrida, que abrange tanto pessoas cujo fenótipo deriva diretamente da forte miscigenação característica da sociedade brasileira, quanto pessoas que provavelmente seriam melhor descritas como "indígenas aculturados". A não ser que essa seja a causa da desproporção menor entre pardos e pardas (em função de condições de vida mais próximas daquelas do começo da transição demográfica), parece haver uma discriminação negativa em relação aos homens pardos na preferência matrimonial feminina (ou, o que parece menos provável à primeira vista, o casamento "despardiza" os homens, levando-os a ser mais estritamente definidos como "brancos" ou "pretos").

Dados%20sobre%20a%20Solid%C3%A3o%20das%20Mulheres%20Negras-2.png

Aqui abrimos os dados em relação aos grupos de idade. As duas primeiras colunas nos dão os dados em relação às mulheres pretas (não negras em geral, mas apenas a categoria "extrema" do IBGE), em números absolutos e em percentuais. As duas colunas da direita nos dão os mesmos dados em relação às mulheres brancas.

Aqui podemos ver que a diferença entre as mulheres brancas e negras que havíamos notado no primeiro conjunto de tabelas é dependente da variável "faixa etária": de fato, as mulheres pretas com menos de 25 tendiam a estar em união mais do que as brancas. É só a partir dos 25 anos que as mulheres pretas são mais "solitárias". As mulheres negras, então, tendiam a casar mais cedo (e a enviuvar ou separar mais cedo). Esse fenômeno nos parece mais importante do que simplesmente uma "solidão das mulheres negras": as uniões das mulheres negras (ou, pelo menos, das pretas) são mais precoces (e, portanto, provavelmente de pior qualidade); da mesma forma, o fim dessas uniões tende a se dar mais cedo (e é portanto também de pior qualidade, ocorrendo com mais frequência num momento da vida dessas mulheres em que os filhos ainda não são independentes, e em que essas mulheres não estão ainda aposentadas, implicando uma sobrecarga maior em termos de dupla jornada de trabalho).

Unless otherwise stated, the content of this page is licensed under Creative Commons Attribution-ShareAlike 3.0 License