O Sindicalismo e as Manifestações de Junho

O Sindicalismo e as Manifestações de Junho

Em junho de 2012, o país foi surpreendido por uma onda de manifestações de rua, as quais provocaram as reações mais diversas, da incredulidade ao entusiasmo, e do medo à expectativa, em todos os setores políticos, da extrema-esquerda à extrema-direita. Quase tão rapidamente quanto surgiram, essas manifestações se dispersaram até agosto, sem deixar nenhum saldo organizativo visível, o que leva a uma atitude generalizada de esquecimento e acomodação. No nosso entendimento, isso é um equívoco. Embora o movimento tenha se dispersado no momento, as condições estruturais que o criaram continuam presentes. Se em 2013 o movimento sindical foi tomado de surpresa pelas manifestações, deve estar preparado para interagir com elas de forma correta e organizada em 2014. Para tanto, é necessário tentar entender o conteúdo e a forma dessas manifestações, para sermos capazes de adotar uma postura proativa diante delas, quando eventualmente se repetirem.
Em primeiro lugar, é preciso entender o contexto profundo das manifestações. Elas se dão sob o signo da profunda crise do sistema capitalista que emergiu em 2008. Nesse sentido, elas são parte de um contínuo que engloba desde o Ocuppy Wall Street e os Indignados espanhóis até as manifestações de massa contra a “austeridade” na Grécia e a “Primavera Árabe”. Embora esta crise ainda não tenha (até setembro de 2013) manifestado todo o seu potencial destrutivo no Brasil, que continua a funcionar economicamente sob os efeitos das políticas econômicas distributivistas que minoraram os efeitos recessivos que afetaram tão duramente o Oriente Médio e a periferia europeia (Grécia, Portugal, Irlanda, Espanha e Itália), é impossível não perceber que as manifestações respondem à lógica da crise, ainda que sem terem sido capazes de formular conscientemente o problema.

A principal característica da conjuntura política internacional, que deve ser entendida para que as manifestações de junho possam fazer sentido, é a volatilidade. Embora as manifestações populares na Europa e nos Estados Unidos tenham uma lógica política clara, de oposição às medidas recessivas tomadas pelos governos em resposta à crise, as suas equivalentes nos países do terceiro mundo respondem imediatamente a fenômenos muito diferentes, indo do suicídio de um jovem desempregado na Tunísia à mudança de destinação de um parque urbano na Turquia. Na superfície, não aparece relação direta entre a crise e as manifestações. É o caso do Brasil. Aqui, as manifestações foram desencadeadas por uma conjunção fortuita, quase astrológica, de fatores díspares e aparentemente independentes: o aumento das passagens de transporte urbano, a Copa das Confederações, e a discussão no Congresso de algumas questões que capturaram o interesse da imprensa e do público, entre elas o famigerado Estatuto do Nascituro e a malfadada PEC 37, que foi manipulada, primeiro pelo Ministério Público, depois pela imprensa, como a “Emenda da Impunidade”.

O relevante, no caso brasileiro, não são esses elementos pontuais, quase fortuitos, da mesma forma que, na Turquia, o importante não é a transformação do parque em shopping center. O fundamental é a volatilidade da conjuntura, em que circunstâncias aparentemente insignificantes se combinam facilmente para produzir erupções populares à primeira vista desproporcionais. É exatamente por isso que devemos estar atentos para os desdobramentos futuros, na medida em que quaisquer conjunções de fatos díspares podem eventualmente resultar na retomada do movimento de rua – especialmente por que pelo menos um dos elementos que desencadearam as manifestações de junho de 2013 se repetirá, de forma ampliada, em 2014, quando, em vez da Copa das Confederações, teremos a Copa do Mundo. Não é difícil prever que outros elementos quotidianos possam substituir o aumento dos ônibus, ou que o Congresso (ou o STF) possa (ou até precise) produzir polêmicas de igual ou maior impacto do que o Estatuto do Nascituro ou a PEC 37. Assim, o movimento sindical deve estar preparado para um ano de turbulência em 2014, na medida em que a crise econômica, longe de se resolver ou atenuar, deve se aprofundar até lá.

Isto posto, é preciso tentar entender o conteúdo das manifestações de junho para podermos nos colocar numa situação de avançar politicamente na conjuntura. Ora, essa é uma análise bastante difícil, por que as manifestações de junho foram tudo menos coerentes e unificadas. Na Grécia, na Turquia, no Egito, as manifestações de rua convergiram rapidamente para um ponto de consenso, que lhes deu força e unidade: a oposição ao governo constituído, o qual pôde sem dificuldade ser responsabilizado pelos problemas econômicos e políticos enfrentados pela população. No Brasil, ao contrário, embora o governo tenha sido surpreendido e assustado pelo ímpeto e pela espontaneidade das manifestações, o descontentamento não pôde achar um alvo tão fácil, e na verdade as manifestações sequer se aproximaram de contestar a legitimidade do governo. Mas, e esse é um ponto importante, se o descontentamento com o governo (na medida em que esse governo não tem agido diretamente como um intensificador da crise) foi muito menos contundente, as manifestações deixaram entrever um grau de descontentamento generalizado e profundo com o conjunto das instituições, particularmente o Congresso, a polícia, os partidos políticos e o sistema partidário, e mesmo, o que nos interessa mais diretamente, com o movimento sindical.

O lema que unificou esse descontentamento foi a “corrupção”, sem que o movimento tenha sido capaz de refletir mais profundamente sobre o que é, o que significa, e por que existe a “corrupção”. Ora, este é um risco muito sério, por que a corrupção, enquanto elemento constitutivo de qualquer sistema político subordinado à lógica do capital, não pode ser efetivamente combatida sem colocar em questão o sistema capitalista, e portanto a oposição efetiva a ela não se pode verbalizar de forma fácil, coerente com o senso comum. Mas, ao contrário, a emergência pública dos casos de corrupção pode, sob a ótica da direita, ser transformada no alvo a ser atingido, e confundida, pelo senso comum, com a própria existência da corrupção. Daí o surgimento, no âmbito das manifestações de junho, de discursos reacionários, que comparam a ampla publicização dos casos de corrupção num regime democrático com a aparente ausência da corrupção no discurso público sob a ditadura, para concluir pelo apelo aos militares, ou mais genericamente ao punitivismo, no combate à corrupção.

Essa lógica explica a dinâmica dos movimentos de junho, que afinal levou à sua dispersão:sem poder se politizar de forma imediata como oposição a um governo amplamente responsabilizado pelos problemas econômicos do país, o movimento se voltou à “política da anti-política”, que foi o gancho apanhado pela direita organizada nos meios de comunicação de massa para tentar dirigir o movimento a partir de fora. Esta exigiu a elevação da corrupção a alvo central, mas desfigurado pela inversão entre realidade e aparência, o aumento da exposição pública da corrupção sendo tomado como aumento da corrupção em si. Levou, por outro lado, à necessidade de denunciar todos os “políticos” e partidos políticos sem distinção ou critério, do DEM ao PSTU (para grande surpresa deste); à sombra desse mal-entendido, outras bandeiras de direita, particularmente a redução da maioridade penal, acabaram também repercutindo no movimento.

Isso provocou, é claro, o esvaziamento das manifestações, com diversos setores que se engajaram inicialmente se retirando (o próprio MPL, cujas manifestações contra o aumento das passagens foram o estopim inicial do movimento sendo o exemplo mais gritante) ou passando a convocar manifestações em separado (movimentos de periferia, a Marcha das Vadias, no apagar das luzes o próprio movimento sindical) com bandeiras mais definidas, até como reação natural ao extremo autoritarismo que passo a caracterizar o movimento, com o verde e amarelo sendo decretados as únicas cores, e o combate à corrupção a única bandeira admissível, tudo mais sendo “divisionismo”. A imprensa burguesa pôde então chamar facilmente o fim das manifestações (realçando, é claro, os “blackblocs” e responsabilizando-os pelo fracionamento das manifestações), enquanto clamava vitória, pois, afinal, a PEC 37, inviabilizada, fora derrubada no processo.

Ora, a questão que deve nos preocupar agora é como influir para que as mobilizações que eventualmente venham a ocorrer no futuro próximo passem por um processo de radicalização na defesa dos interesses dos trabalhadores e demais oprimidos, sem se deixarem dominar pelas impossibilidades práticas de resolver os problemas causados pela dominação do capital sem questionar essa mesma dominação. Para isso, entendemos que o movimento sindical deve ter uma postura proativa em 2014, convocando antecipadamente manifestações sobre uma pauta construída na base da defesa dos interesses dos trabalhadores. Particularmente, ênfase deve ser posta sobre a intervenção estatal nos serviços urbanos e nos serviços de saúde. Paralelamente, a discussão sobre corrupção deve ser invertida, com foco nos benefícios que a corrupção propicia ao capital e aos capitalistas individuais; a privatização deve ser discutida nesse âmbito, e particularmente a formação de novas e novíssimas fortunas a partir do nada (Banco Opportunity, Daniel Dantas, Eike Batista, etc). Da mesma forma, a crítica da Copa do Mundo deve ser feita a partir da problemática das intervenções urbanas que ela propicia, e do seu impacto nas populações mais pobres, evitando-se o discurso do “futebol é alienação”, que constitui sobretudo preconceito anti-popular de classe média.

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