Linguas

Sobre o conceito de "dialeto" e algumas coisas ditas "politicamente corretas"

"Dialeto" é uma palavra que possui dois campos semânticos distintos, embora suficientemente interrelacionados para que, de seu uso descuidado (ou cuidadosamente ambíguo) surja confusão.

Tradicionalmente, "dialeto" designa uma língua minoritária, geralmente sem tradição literária, e/ou não considerada oficial por nenhum Estado, mas intimamente aparentada com a língua oficial do território em que é usada. São, assim, dialetos o vêneto, o galego, o frísio ou o prussiano (não a antiga língua báltica, mas a moderna língua germânica).

Este uso, infelizmente, adquiriu uma conotação depreciativa: na medida em que - digamos - o vêneto é uma língua intimamente aparentada com o italiano, tornou-se comum dizer que o vêneto "é um dialeto do italiano" - e deduzir, ou induzir, que se trata de um "italiano imperfeito", "incorreto", ou "vulgar".

Possivelmente em reação a isso, surgiu mais recentemente um outro uso, "politicamente correto" da palavra dialeto. Recusa-se a conotação valorativa que se tornou associada a "dialeto", e ao mesmo tempo se expande o seu campo nocional, passando a usar livremente o termo "dialeto" para referir as mais diversas variantes e subconjuntos de uma dada língua. Assim, fala-se em "dialeto carioca", "dialeto dos pescadores", "dialeto dos economistas", etc. Tudo isso sem, por outro lado, deixar de chamar o vêneto ou o pomerano de "dialetos".

Ora, se há problemas com o primeiro uso do termo, há muitos mais com o segundo. Explico.

O que quer que o vêneto seja, é uma língua completa (ou quase completa; veremos isso mais tarde). Há (em princípio) um falar dos pescadores vêneto, uma gíria dos ladrões vêneta, um "economês" veneto, um jargão dos médicos vêneto. E há, é claro, variantes regionais do vêneto; poucas, talvez, devido à pequena extensão do território em que o vêneto é falado e ao pequeno número dos seus falantes; mas certamente não inexistentes. Assim, se o vêneto é um dialeto, não o é, de forma nenhuma, no mesmo sentido em que o "dialeto carioca" seria um dialeto.

Esta confusão se compõe com outra, menos inocente. Se recusamos a conotação pejorativa comumente atribuída à palavra "dialeto" (o que é muito justo, pois o vêneto é uma língua na mesma acepção que o italiano, o urdu ou o grego clássico), ao mesmo tempo que ampliamos o uso da palavra para designar fenômenos de outra natureza, corremos o risco de nos convencer que o "dialeto dos pescadores" de uma língua qualquer é também uma língua completa, equivalente ao inglês ou ao swahili.

E isto é evidentemente um erro. O falar dos pescadores (como o jargão dos advogados ou a gíria dos estudantes) não é de forma nenhuma uma língua como o alemão ou o hebraico (ou, para sermos bem claros, o vêneto). É, ao contrário, parte de uma língua; se estivermos discutindo o falar dos pescadores no Brasil, parte da língua portuguesa.

Existe uma série de coisas que é, do ponto-de-vista de um pescador, importante ou necessário distinguir umas das outras, e que portanto requerem palavras ou expressões próprias, que permitam a um pescador expressar essas distinções, e entendê-las quando são expressas por outros. Mas essas distinções semânticas que são próprias da atividade dos pescadores não são igualmente importantes do ponto-de-vista de um médico, ou de um ladrão, e portanto não fazem parte da fala destes últimos. Inversamente, existem distinções que são importantes para todos, independentemente de serem pescadores ou não. Quando dizemos "falar dos pescadores", não estamos, portanto, discutindo uma língua completa, mas apenas um subconjunto, bem delimitado, de uma língua. E, como sabemos, quando os pescadores precisam se comunicar com avogados, ou políticos, eles não se utilizam do seu falar, mas da língua portuguesa em um sentido mais amplo.

E, como os linguistas deveriam fazer como os pescadores, e distinguir as coisas que, para eles, são importantes de distinguir, usando, se necessário, palavras e expressões diferentes para cada uma delas, seria conveniente decidir que significado deveria ter a palavra "dialeto" no contexto da comunicação entre linguistas. Ou bem ela serve para designar um tipo específico de língua (como, tradicionalmente, "uma língua minoritária, geralmente sem tradição literária, e/ou não considerada oficial por nenhum Estado", embora não necessariamente esse tipo de língua), ou bem ela serve para designar qualquer subconjunto de uma dada língua (ou um tipo específico de subconjunto).

Aqui, eu, que não sou linguista, vou utilizar a palavra dialeto exclusivamente para designar línguas pertencentes a um determinado tipo, e não subconjuntos de línguas propriamente ditas. Precisamente, vou utilizar o termo para designar línguas sem Estado, desde que sejam, embora distintas, intimamente aparentadas com a língua oficial do território em que são faladas.

A objeção mais comumente levantada contra esse uso da palavra "dialeto" é que ele estabelece uma distinção "extra-linguistica" entre "línguas" e "dialetos". Não concordo. Fatos "extra-linguisticos" podem ter, e frequentemente têm, conseqüências linguisticas. A existência de um Estado, por exemplo, necessariamente tem conseqüências linguisticas, por que o Estado estabelece necessariamente aparatos jurídicos, policiais e educacionais que tendem a criar hábitos linguisticos próprios. Assim, um dialeto tende a ser uma língua à qual faltam os termos jurídicos e boa parte dos jargões técnicos (que se reproduzem preferencialmente nas universidades). Na verdade, um dialeto tende a perder o seu "registro padrão": sem academias e universidades que reproduzam a variedade socialmente mais "elevada", a tendência é que os dialetos acabem sendo reduzidos aos seus registros coloquiais e populares. É neste sentido que me referi, anteriormente, ao vêneto como uma "língua quase completa". Poder-se ia dizer, uma língua mutilada, até mesmo uma língua "decapitada".

Línguas, Dialetos, Variantes

Acima, defini "dialeto" como "línguas sem Estado, desde que sejam, embora distintas, intimamente aparentadas com a língua oficial do território em que são faladas". O que significa que estou optando por um conceito não-linguístico de "dialeto": a única diferença, segundo essa conceituação, entre "dialeto" e "língua" é que a segunda está relacionada com uma estrutura política específica - o Estado - enquanto a primeira necessariamente não está.

Por outro lado, línguas - e dialetos - não são estruturas monolíticas. Elas comportam variantes dos mais diversos tipos, inclusive variantes regionais - que são, com freqüência (e, aliás, com freqüência crescente) chamadas "dialetos". É assim que, por exemplo, a Wikipedia define dialeto como

"Um dialeto (português brasileiro) ou dialecto (português europeu), do grego διάλεκτος, é a forma como uma língua é realizada numa região específica. Cientificamente este conceito é conhecido por "variação diatópica", 'variedade geolinguística' ou 'variedade dialetal'."

De acordo com esse critério, são dialetos a variante carioca ou a variante mineira do português brasileiro. Tal uso só pode causar confusão: pois, gostemos ou não, o que se chama "dialeto" em português é outra coisa. De fato, não apenas em português como em outras línguas; em inglês, por exemplo, a palavra "dialect" é usada tradicional e principalmente para referir fenômenos como o do galego, do provençal, do vêneto, ou do plattdeutsch. Todas estas são línguas diferentes, com vocabulário, gramática, fonética, etc., diferentes das do castelhano, francês, italiano ou alemão. Ora, falar em "dialetos" ou "dialects" do português brasileiro é criar ilusões a respeito da existência de nacionalidades diversas (distintas das indígenas) dentro do Brasil, o que pode ter inclusive implicações políticas.

Na prática, trata-se declarar que o uso "correto" de uma palavra é um tal uso que não é praticado, nem pela população em geral, nem, de modo coerente, pela academia, e simultaneamente decretar "errada" a concepção consagrada pelo uso. "Correto", naturalmente, do ponto-de-vista político, ou seja "politicamente correto".

Associada a essa definição de "dialeto" se encontra, comumente, a seguinte delimitação entre "dialeto" e "língua": a de que duas unidades linguísticas são "dialetos" se são mutuamente compreensíveis, mas "línguas" se não são. De novo cito a Wikipedia:

"Se duas comunidades conseguem facilmente compreender-se ao usarem o seu sistema linguístico, então, elas falam a mesma língua."

Há muitos problemas com essa definição, inclusive o conceito de "comunidade", que é tão vago e ideologizado que sempre seria preferível não utilizá-lo (ou pelo menos, não utilizá-lo para se referir a conjuntos humanos vivendo sob a hegemonia do capitalismo contemporâneo). Mas é evidente que o problema maior se refere à inteligibilidade mútua. Línguas diferentes, como o norueguês e o sueco, podem ser mutuamente compreensíveis; já vimos que o que caracteriza aquilo que vem sendo chamado de "dialeto" através dos séculos geralmente é a ininteligibilidade, ou inteligibilidade apenas parcial, da parte daqueles que não falam o dialeto.

Mas não apenas isso. O que vem a ser "inteligibilidade mútua"? O que se compreende por "facilmente"?

É óbvio que um falante do português que nunca tenha estudado francês é incapaz de compreender qualquer coisa falada em francês (escrita em francês, também, mas nem tanto). É também evidente que um falante do português que nunca tenha estudado castelhano é capaz de compreender muita coisa falada em castelhano (e quase tudo escrito em castelhano). Trata-se de uma língua só? Para negá-lo, é necessário recorrer ou a um uso um tanto questionável do advérbio "facilmente", ou ao fato de que a inteligibilidade mútua entre castelhano e português não tem mão-dupla: falantes do castelhano que nunca estudaram o português acham muito difícil entender o português falado (embora, de novo, possam compreender com bastante facilidade o português escrito). Uma outra maneira é evocar a identidade literária comum (como também faz a Wikipedia: "Se entre duas comunidades existe um conjunto de obras literárias que são consideradas património/ patrimônio usado por ambas (sem que haja necessidade de tradução), então elas falam a mesma língua.") Mas isso também é introduzir critérios extra-linguisticos (em grande parte, critérios políticos, na medida em que a formação de um cânone literário é também um processo político).

Valer-se do uso interessante e interessado do advérbio "facilmente" é na verdade aceitar de contrabando os argumentos "extra-linguísticos" que supostamente se quer combater. Como a praxe (que se deve, entre outros, mas principalmente, a fatores políticos) é considerar português e castelhano línguas distintas, então definimos "facilmente" como aquilo que ocorre entre o português de Portugal e o português do Brasil, mas não entre o português e o castelhano (mas: se um texto escrito em português de Portugal é basicamente idêntico a um texto escrito em português do Brasil, o português falado em Portugal já não é de tão fácil compreensão para os brasileiros. Será que é, realmente, mais fácil de compreender do que o castelhano falado?)

Mais interessante, porém, é o fenômeno da inteligibilidade unidirecional. Aparentemente, do ponto-de-vista do português, português e castelhano são a mesma língua. Do ponto-de-vista do castelhano, são línguas diferentes. Por quê? Uma explicação possível é que o português passou por transformações adicionais em relação ao castelhano; é mais fácil reconstruir uma modificação pela qua a outra língua não passou do que imaginar por que modificação, ausente na nossa língua, uma palavra estranha teria passado. Acho essa explicação um tanto forçada e vou propor uma outra, que me parece mais razoável.

Entre duas línguas, ou duas variantes, existem vários tipos de diferença, particularmente:

a) diferenças gramaticais. O português usa, por exemplo, um pretérito perfeito sintético:

Ele foi um grande homem.

Enquanto o castelhano prefere um pretérito perfeito composto:

El há sido un gran hombre.

Da mesma forma, o português falado no Rio Grande do Sul prefere utilizar determinados verbos como reflexivos:

Ela ainda não se arrumou.

Enquanto em Minas Gerais se prefere não fazê-lo:

Ela ainda não arrumou.

b) diferenças léxicas. As palavras do português e do castelhano são diferentes:

Una zanahoria no es una naranja.
Uma cenoura não é uma laranja.

Da mesma forma, as palavras usadas no português do Rio Grande do Sul não são necessariamente as mesmas usadas em Minas Gerais:

Uma laranja não é uma bergamota.
Uma laranja não é uma tangerina.

(Às vezes, a forma escrita esconde diferenças reais entre as palavras; para um gaúcho, o que o mineiro diz não é "não é uma tangerina", mas "num é uma tangirina". Em alguns casos, essa diferença é tão grande quanto a diferença entre o português e o castelhano: por exemplo, não é verdade que a diferença entre "órgão" e "órgano" seja maior que a que existe entre "órgão" (pronunciado "órgão") e "órgão" (pronunciado "orgo").

c) diferenças fonéticas. Não apenas os sons utilizados no castelhano são diferentes dos usados no português, como eles se relacionam entre si de forma diferente. Assim, o "j" castelhano corresponde a um som que não existe em português (ou existe mas é um alófone de um som, o "rr", que ocorre em português em posições análogas ao "rr" castelhano - e não ao "j"). Assim, o português "carro" talvez soe como "cajo" para um castelhano; mas a palavra correspondente a "carro" em castelhano não é "cajo", e sim "carro" - em que o "rr" se pronuncia de maneira bem diferente. Inversamente, os sons grafados como "j", "z", "ã", "é", "ó", inexistem em castelhano. Está o leitor a ver que uma das diferenças entre o castelhano e o português é o número de fonemas; o português tem mais fonemas que o castelhano, e, particularmente, muito mais fonemas vocálicos que o castelhano.

Vejamos:

Em português, existem duas diferentes consoantes, /b/ e /v/. Elas formam pares mínimos, isto é "voa" é uma palavra distinta (e se pronuncia de forma diferente) de "boa". Em castelhano, essa consoantes são uma só (que se pronuncia /b/ no inicio das palavras, mas /β/ em todos os outros casos).

Em português, existem duas diferentes consoantes, /s/ e /z/, também formando pares mínimos ("casa" e "caça"). Em castelhano, as consoantes são /s/ e /θ/ (técnicamente, os falantes do castelhano às vezes pronunciam /z/, mas aí não como um fonema, mas como um alófone: em "mismo", por exemplo).

Vamos aqui explicar uma coisa importante: um fonema só é um fonema quando produz pares mínimos. Por exemplo, em português, existem duas palavras diferentes, "casa" e "caça" (e, em outros casos, não existem duas palavras, mas nesse caso uma das duas pronúncias é "errada", como, por exemplo, "maçã", que é uma palavra, e "mazã", que não é nada; ou "azul" e "assul"). Mas, em situações como "asma" (que se pronuncia /azma/) e "aspa" (que se pronuncia /aspa/), não existe par mínimo, por que, em português, tanto /asma/ quanto /azpa/ são pronúncias inaceitáveis. É por isso que o /z/ em castelhano não é um fonema, mesmo nas variantes em que existe.

Tanto em português quanto em castelhano existem duas consoantes, /d/ e /t/, que produzem pares mínimos. Entretanto, essas consoantes têm alófones (/dʒ/ e /tʃ/) em português (quando antes de "i" ou "e" com som de /i/) diferentes do castelhano (em que /dʒ/ não existe e /tʃ/ é um fonema).

Tanto em português quanto em castelhano existe uma consoante /f/. Em português, como já vimos, existe uma consoante /v/, que não existe em castelhano (o que se escreve "v" em castelhano se pronuncia /b/ ou /β/, conforme a posição na palavra).

Tanto em português quanto em castelhano, existem consoantes /g/ e /k/.

Em português, existe uma consoante / ʒ/, grafada "g" ou "j", que não existe em castelhano.

Em castelhano, existe uma consoante /x/, grafada "g", "j", ou (raramente) "x", que, em português, ou não existe ou é um alófone de "r".

Em português, como em castelhano, existe uma consoante /l/. Entretanto, essa consoante tem um alófone em português (que em algumas variantes é /ɫ/ e em outras é /w/) em posição pós-vocálica, diferentemente do castelhano.

Em português, como em castelhano, existe uma consoante /ʎ/, grafada "lh" em português e ll em castelhano. Em algumas variantes coloquiais e populares do português, essa consoante se pronuncia como a semivogal /j/ ("paia" em vez de "palha"). Em algumas variantes do castelhano, ela se pronuncia /ʝ/, que, por outro lado, é um fonema, grafado "y" que existe em castelhano (em outras variantes fazendo pares mínimos com /ʎ/), mas não em português.

Tanto em português quanto em castelhano existem consoantes /m/ e /n/, as quais, entretanto, não podem ocorrer em posição pós-vocálica em português (em que o que se grafa "m" ou "n" é um signo de nasalização da vogal precedente).

Tanto em português como em castelhano existe uma consoante /p/. Em português, como já vimos, existe uma consoante /b/, que em castelhano se pronuncia /b/ ou /β/, conforme a posição na palavra).

Tanto em português quanto em castelhano, existem as consoantes

Substantivos e adjetivos em português: duas classes, três, ou uma?

A classificação da gramática tradicional divide os nominais portugueses em duas classes, adjetivos e substantivos. Uma das descrições, mais semântica que sintática, é que substantivos são palavras que designam "coisas", e adjetivos são palavras que atribuem "qualidades" aos substantivos. Numa perspectiva mais propriamente gramatical, substantivos são palavras que podem constituir o núcleo de um sintagma nominal; adjetivos são palavras que podem ocupar as posições imediatamente anteriores ou posteriores ao núcleo do SN.

Assim, por exemplo, "casa" é um substantivo:

A casa é azul.
A primeira casa antes do supermercado é azul.
As duas primeiras casas azuis estão à venda.
Comprei uma casa.

"Pequeno", por outro lado, é um adjetivo:

A casa pequena é muito cara.
A pequena casa ao lado do lago é muito cara.

Entretanto, há alguns problemas.

Primeiro, algumas palavras parecem poder ocupar tanto a posição de substantivo quanto de adjetivo:

O brasileiro chegou em terceiro lugar.
O atleta brasileiro chegou em terceiro lugar.

Depois, algumas palavras parecem poder ocupar tanto a posição imediatamente anterior quanto a imediatamente posterior ao núcleo do SN:

A casa pequena é muito cara.
A pequena casa ao lado do lago é muito cara.

Outras palavras, contudo, só podem ocupar a posição posterior:

A casa azul é muito cara.
*A azul casa é muito cara.

A solução da gramática tradicional consiste em dizer que palavras como "brasileiro" são adjetivos que podem desempenhar a função de substantivo. Entretanto, isso cria uma nova dificuldade:

O monstro está rondando a casa azul.
Nova Iorque é uma cidade monstro.

Aqui a gramática tradicional vai fazer a afirmativa simétrica: "monstro" é um substantivo que pode desempenhar a função de adjetivo. Qual a diferença? Evidentemente, pode-se recorrer a um argumento estatístico ('"monstro" aparece mais vezes como núcleo do SN do que nas posições adjacentes'; '"brasileiro aparece mais vezes nas posições adjacentes do que como núcleo do SN') ou cronológico ('o registro mais antigo da palavra "monstro" é como núcleo de SN', etc).

Até agora, aparentemente, teríamos os seguintes tipos de palavra:

Aquelas que podem aparecer tanto como núcleo do SN, como na posição imediatamente anterior, ou na imediatamente posterior:

Ela não é mais a minha pequena. (núcleo do SN)
A pequena casa fica na beira do lago. (antes do núcleo do SN)
A casa pequena, estranhamente, é a mais cara. (depois do núcleo do SN)

Aquelas que podem aparecer como núcleo do SN ou na posição imediatamente posterior, mas não na anterior:

O azul é uma cor muito bonita. (núcleo do SN)
A casa azul é a mais cara. (depois do SN).
*A azul casa fica na beira do lago. (antes do SN)

As hipóteses que teriam de ser testadas são as seguintes. Existem palavras que:

a) podem aparecer como núcleo do SN, mas não nas posições adjacentes?

b) podem aparecer como núcleo do SN ou na posição imediatamente anterior, mas não na posterior?

c) podem aparecer em uma ou ambas posições adjacentes, mas não como núcleos do SN?

Antes disso de discutir essas hipóteses mais detalhadamente, vamos eliminar algumas palavras que podem aparecer antes do núcleo do SN, mas não são nem adjetivos nem substantivos:

Aquela casa fica na beira do lago.

"Aquela", aqui, parece muito semelhante a "pequena" nos exemplos anteriores. E, em algumas variedades do português falado, pelo menos, pode também aparecer depois do núcleo do SN:

A casa aquela fica na beira do lago.

Mas nunca como núcleo do SN:

*A aquela fica na beira do lago.

A não ser, claro, em contextos anafóricos:

- Porque você comprou aquela casa?
- Achei a azul muito cara, então comprei aquela.

Mas, na verdade, o que acontece é que, numa construção como:

Aquela casa é azul.

"Aquela" não está ocupando, de fato, a posição imediatamente anterior ao núcleo do SN. Essa posição está vaga, e "aquela" ocupa uma posição anterior a ela. Isto fica claro por que podemos sempre introduzir adjetivos (do tipo que pode ser usado antes do núcleo do SN) entre "aquela" e o "substantivo" casa:

Aquela pequena casa é azul.

Mas nunca

*A pequena aquela casa é azul.

O mesmo raciocínio vale, mutatis mutandi, para "aquela" quando usada depois do núcleo do SN:

A pequena casa aquela fica à beira do lago.
A casa pequena aquela fica à beira do lago.
*A casa aquela pequena fica à beira do lago.

Isso me parece indicar uma especificidade dos complementos do verbo "ser" (mesmo em comparação com outros verbos de ligação). Pois a seguinte construção é gramatical:

A casa é aquela.

O que parece indicar que o verbo "ser", como todos os verbos de ligação aceita um complemento que não é um SN. Entretanto, compare-se:

A casa é aquela.
?A casa parece aquela.

(mas,

A casa parece ser aquela.)

?A casa continua aquela.

Aquela é a casa.
?Aquela parece a casa.
*Aquela continua a casa.

Assim, parece que há um tipo de complemento que só é realmente aceito pelo verbo "ser". E, na verdade, parece que os verbos "ser" e "parecer" aceitam esse tipo de construção na posição de sujeito:

Aquela é a moça de que te falei.
Aquela parece a moça de que te falei.

O que é ainda mais inadmissível com outros verbos de ligação:

*Aquela continua a moça de que te falei.
*Aquela ficou a moça de que te falei.

Entretanto, isso nem sempre acontece:

Aquela é a casa.
*Aquela é azul.

O que me leva a crer que em

Aquela é a casa.
Azul é a casa.

o sujeito é na verdade "a casa", e não "aquela" ou "azul".

Este é o caso, até onde eu possa ver, de todos os "pronomes adjetivos", numerais e artigos: são palavras que, na verdade, não podem ocupar nenhuma das três posições que estamos discutindo (núcleo do SN e as posições imediatamente anterior e posterior ao núcleo do SN), e não são, portanto, nem adjetivos nem substantivos.

Vou discutir agora a hipótese c), que me parece a mais fácil de solucionar, desde que introduzamos um conceito auxiliar. Existem palavras que podem aparecer em uma ou ambas posições adjacentes, mas não como núcleos do SN?

Minha hipótese é que não existem essas palavras, ainda que, muito provavelmente, existam palavras que já foram utilizadas milhões de vezes em uma ou ambas posições adjacentes ao núcleo do SN, mas nunca como núcleos de SN. Explico.

Vejamos de novo uma frase como:

O brasileiro chegou em segundo lugar.

Parece-me que esta oração é derivada da seguinte:

O atleta brasileiro chegou em segundo lugar.

Com elisão da palavra "atleta". Note-se que não estou dizendo que "o brasileiro" seria um SN sem núcleo. Quando discutimos a situação da palavra "aquela" em "aquela casa", afirmei que uma das posições desse SN estava vaga. Aqui, entretanto, não se trata disso. Não pode haver SN sem núcleo; e a palavra "brasileiro", neste contexto, funciona exatamente como um núcleo de SN, inclusive aceitando outros "adjetivos" nas posições imediatamente adjacentes:

O brasileiro ágil chegou em segundo lugar.
O ágil brasileiro chegou em segundo lugar.

Acontece que alguns SNs são utilizados com tal freqüência que a elisão da palavra que normalmente seria o seu núcleo se torna natural, se não introduzir ambigüidade no sentido:

O [idioma] japonês é muito difícil.
O [sujeito] idiota não sabe a diferença entre assertividade e falta de educação.
O [indivíduo] poderoso despreza os fracos.

Outros SNs, contudo, não aceitam tão facilmente essa elisão, e podem nos dar a impressão de que os seus "adjetivos" não podem "funcionar como substantivos":

?Você é uma inexplicável. (Uma pessoa inexplicável)
?A falsa é facilmente reconhecível. (A moeda falsa é facilmente reconhecível)

A razão por que a primeira dessas frases soa estranha está, penso, na estranheza, ou pelo menos raridade, da própria construção quando completa. Mas num contexto em que, por algum motivo, se aceita a expressão "você é uma pessoa inexplicável" como normal, "você é uma inexplicável" também se torna perfeitamente aceitável. Um contexto assim ocorre no "Memorial de Aires", de Machado de Assis, em que o SN "uma inexplicável" é de fato utilizado.

Quanto à segunda dessas frases, o problema me parece estar na ambigüidade. Embora uma moeda falsa possa ser facilmente reconhecível, a frase "a falsa é facilmente reconhecível" não o é, por que, isoladamente, nos deixa sem saber que tipo de coisa é falsa. Por isso, só é aceitável em contextos anafóricos:

- Tenho receio de aceitar uma moeda falsa.
- Bobagem, a falsa é facilmente reconhecível.

Entretanto, também o "adjetivo" "falsa" pode "funcionar como substantivo" quando o contexto não deixa margem a dúvidas:

Você é uma falsa. (o uso do pronome "você" torna claro que o adjetivo se refere a uma pessoa)
A falsa fugiu com o marido da melhor amiga. (somente pessoas fogem com o marido das amigas).

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