Imigração

A PARTICIPAÇÃO DA IMIGRAÇÃO EUROPÉIA NA FORMAÇÃO DA POPULAÇÃO BRASILEIRA: MITO E REALIDADE

Uma pesquisa superficial na internet revela uma crença difundida em alguns números a respeito da população de origem imigrante no Brasil:

Italianos:

[http://wapedia.mobi/pt/Imigra%C3%A7%C3%A3o_italiana_no_brasil]

A imigração italiana no Brasil teve como ápice o período entre 1880 e 1930. Segundo estimativa da embaixada italiana no Brasil, vivem no País cerca de 25 milhões de descendentes de imigrantes italianos.[1]

http://lambari2-mg.blogspot.com/2007/10/influncia-italiana-no-brasil-e-seus.html (cita a Wikipedia como fonte)

São Paulo
40 milhões - População total
10 milhões- População com ascendência italiana
27% - Porcentagem de ítalo-descendentes

Paraná -
10 milhões
4 milhões
40%

Rio Grande do Sul -
10,8 milhões
3 milhões
28,7%

Santa Catarina -
5,8 milhões
3 milhões
51,8%

Minas Gerais -
19 milhões
2 milhões
10,6%

Espírito Santo -
3,4 milhões
2 milhões
59%

Rio de Janeiro -
15,3 milhões
1 milhão
6,7%

Região Norte do Brasil -
14,5 milhões
1 milhão
8%

Região Centro-Oeste do Brasil -
13 milhões
600 mil
4,7%

Região Nordeste do Brasil -
49 milhões
200 mil
0,4%

http://www.correiodeuberlandia.com.br/texto/2008/06/17/30016/descendentes_italianos_se_unem.html

O Brasil é o país com maior número de descendentes fora da Itália, com mais de 25 milhões de pessoas.

http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=782538

Atualmente, vivem no Espírito Santo 1,7 milhão de italianos e descendentes, já bastante miscigenados com descendentes de outros povos, representando cerca de 65% da população do estado.

http://freepages.family.rootsweb.ancestry.com/~otranto/imigracao_italiana.htm

Dados de 2000 da Embaixada da Itália apontam a presença de 25 milhões italianos e descendentes no Brasil.
O Estado de São Paulo abriga hoje 6 milhões italianos e descendentes, segundo estimativa do Consulado Italiano.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Imigra%C3%A7%C3%A3o_italiana_no_Brasil

Estima-se que, entre 1870 e 1970, em torno de 28 milhões de italianos emigraram (aproximadamente a metade da população da Itália). Entre os destinos principais estavam diversos países da Europa, América do Norte e América do Sul.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Imigra%C3%A7%C3%A3o_italiana_no_Brasil

A imigração italiana no Brasil teve como ápice o período entre 1880 e 1930. Segundo estimativa da embaixada italiana no Brasil, vivem no País cerca de 25 milhões de descendentes de imigrantes italianos.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Descendentes_de_italianos

O Brasil é o país com maior número de descendentes fora da Itália, com mais de 25 milhões de ítalo-descendentes

No Brasil
Brasileiros descendentes de italianos por estados
Estado População total População com ascendência italiana Porcentagem de ítalo-descendentes
São Paulo
40 milhões 13 milhões 32,5%[1]

Paraná
10 milhões 3,7 milhões 37%[2]

Rio Grande do Sul
10,9 milhões 3 milhões 27,0%[3]

Santa Catarina
5,8 milhões 3 milhões 50,0%
Espírito Santo
3,4 milhões 1,7 milhão 65%
Minas Gerais
20 milhões 1,5 milhão 7,5%[4]

Rio de Janeiro
14,1 milhões 600 mil 4,0%[5]

Região Norte
14,5 milhões 1 milhão 6,8%[6]

Região Centro-Oeste
13 milhões 400 mil 4,0%[7]

Região Nordeste
49 milhões 150 mil 0,35%[8]

Total no Brasil 189 milhões 28 milhões 14,8%

Espanhóis:

http://www.mundoeducacao.com.br/historiadobrasil/a-imigracao-espanhola-no-brasil.htm

É estimado que 15 milhões de brasileiros sejam descendentes de imigração, sendo que a maioria está vivendo no estado de São Paulo.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Imigra%C3%A7%C3%A3o_espanhola_no_Brasil

Estima-se que quinze milhões de brasileiros sejam descendentes de imigrantes espanhóis, a maioria vivendo em São Paulo (cita como fonte o Ministério de Negócios Estrangeiros da Espanha)

Alemães:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Alem%C3%A3es

Regiões com população significativa
• Alemanha: 68 milhões
• Estados Unidos: ~ 50 milhões
• Brasil: ~ 12 milhões
• Canadá: ~ 3 milhões
• Argentina: ~ 1,2 milhão

Dos doze milhões de brasileiros que possuem ascendentes alemães, são poucos aqueles que ainda mantêm laços afetivos com a Alemanha.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Imigra%C3%A7%C3%A3o_alem%C3%A3_no_Brasil

População total
18 milhões
10% da população brasileira
Regiões com população significativa
Brasil
18 milhões
(dá como fonte o site abaixo)

http://www.dw-world.de/popups/popup_printcontent/0,,1274817,00.html

Já o jornalista e historiador Dieter Böhnke, de São Paulo, relativiza essa data, afirmando que os primeiros alemães desembarcaram em 1500, entre eles o cozinheiro de Pedro Álvares de Cabral. Segundo ele, mais de 10% da atual população brasileira tem pelo menos um antepassado alemão. Parece muito, mas é pouco, se comparado aos 43 milhões de norte-americanos (15,2% da população dos EUA) que dizem ter pelo menos um ascendente germânico, formando o maior grupo étnico do país. "No Brasil, esses números são bem menores, mas sem a sua contribuição é impossível entender a história, cultura e identidade brasileira", conclui.

Poloneses:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Imigra%C3%A7%C3%A3o_polonesa_no_Brasil

Com um número estimado em mais de 1,8 milhão de descendentes no Brasil[1], os poloneses se tornaram uma grande influência na cultura, nas artes, na culinária e na música brasileira.

http://epoca.globo.com/edic/214/soci1a.htm

“Como se faz para conseguir um passaporte?” Raramente se passa um dia sem que essa pergunta seja feita, por telefone, ao consulado polonês em Curitiba, responsável pelo atendimento à maior parte de uma comunidade de 1,5 milhão de pessoas, entre imigrantes e seus descendentes.

http://www.celin.ufpr.br/cursos/ufpr_celin_polones.htm

Estima-se que há cerca de um milhão e trezentos mil descendentes de poloneses no Brasil dos quais cerca de trezentos mil residem na região de Curitiba e municípios adjacentes.

http://www.guiajaragua.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=88&Itemid=2

Assim como: Itaiópolis, Papanduva..(.SC) Curitiba, Araucária, Campo Largo, Contenda…(PR) Guarani das Missões, Santo Antonio do Palma, Alpestre, Dom Feliciano … (RS) e muitas outras que abrigam neste país mais de um milhão e quatrocentos e cinqüenta mil descendentes de poloneses conforme poderemos conferir nos dados adiante especificados.

http://www.cmc.sc.gov.br/index.php?option=com_content&task=view&id=326&Itemid=2

Os descendentes de poloneses são aproximadamente um milhão de pessoas que vivem no Brasil, dos quais 20 mil moram em Chapecó, onde procuram manter viva a chama da cultura polonesa.

Árabes:

http://www2.mre.gov.br/aspa/entrevista.htm

O que me motiva a dar continuidade a esses esforços de aproximação é o entusiasmo que essa política provoca na comunidade de cerca de 10 milhões de árabes e descendentes que temos no Brasil. (entrevista do Presidente da República)

http://www.brasileitalia.info/forum/topic.asp?TOPIC_ID=6051

A partir do século 19 chegaram os árabes ao Brasil. Vieram em navios para aqui estabelecer suas residências, suas lojas, suas indústrias. Hoje, os árabes, seus filhos e netos somam 12 milhões de pessoas.

http://www.comciencia.br/entrevistas/mohammed.htm

Com Ciência - Estima-se que a população árabe e seus descendentes seja de cerca de 6 milhões, no Brasil. O senhor acha que os hábitos e costumes, incluindo as línguas, mantêm-se entre essas populações?

http://www.brazil-brasil.com/content/view/5/105/

Hoje, os árabes, seus filhos e netos somam 12 milhões de pessoas. Estão à frente de algumas das mais importantes fábricas e entidades empresariais. Sua cultura e seus costumes estão na nossa culinária, música, vocabulário.

http://oglobo.globo.com/mundo/mat/2006/08/17/285309299.asp

Desde 1880, guerras e perseguições religiosas levaram centenas de milhares de libaneses a desembarcarem em massa no Brasil, onde se tornaram a maior colônia de origem árabe, com cerca de 6 milhões de pessoas, somando imigrantes e descendentes. Ao lado deles, a comunidade árabe-brasileira é reforçada por sírios, palestinos e, em menor número, egípcios, marroquinos, jordanianos, iraquianos e outros grupos. ( Leia mais sobre estes imigrantes ) Ao todo, eles são cerca de 8 milhões.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Imigra%C3%A7%C3%A3o_%C3%A1rabe_no_Brasil

Atualmente, 15 milhões de brasileiros possuem ascendência árabe. A maioria é de origem libanesa (7 milhões), enquanto o restante é, predominantemente, de origem síria. É notável, também, a presença de palestinos, egípcios, marroquinos, jordanianos, iraquianos, entre outros. (citando o texto anterior como fonte)

Façamos agora um pequeno exercício de aritmética. No limite superior, segundo essas fontes, teríamos:

25.000.000 de descendentes de italianos;
15.000.000 de descendentes de espanhóis;
18.000.000 de descendentes de alemães;
1.800.000 de descendentes de poloneses; e
15.000.000 de descendentes de árabes,

o que perfaz 74,8 milhões de pessoas – sem considerar os descendentes de japoneses, russos, lituanos, ucranianos, etc. - numa população total de 180 milhões de brasileiros. O que, naturalmente, nos leva a perguntar: onde estão, nessa matemática, os descendentes de portugueses e os descendentes de africanos?

A hipótese que se apresenta como óbvia é que todos, ou pelo menos grande parte, desses “dados” repetidos à exaustão na internet estão equivocados. É o que tentaremos demonstrar.

Em primeiro lugar, passemos a discutir as fontes. No caso dos italianos, espanhóis e árabes, os sites se citam uns aos outros, mas parecem convergir para informações de caráter mais ou menos oficial: “dados” das embaixadas desses países:

Italianos – Embaixada da Itália:

http://www.ambbrasilia.esteri.it/Ambasciata_Brasilia/Menu/I_rapporti_bilaterali/Cooperazione_politica/Storia/ Tal coletividade é, atualmente, composta por quase 300.000 pessoas que possuem passaporte italiano, e por cerca de 25 milhões de descendentes de italianos (os famosos “oriundi”), e representa um patrimônio de inestimável valor para a promoção das relações bilaterais.

Espanhóis – Embaixada da Espanha: http://www.brasilespanha.com.br/artigos/Brasil.pdf

BRASIL – ESPAÑA EN CIFRAS1 :
Más de 15 millones de brasileños son descendientes
directos de españoles. (…) 1 Datos de la Embajada de España en Brasilia y de
Sobeet

Árabes – Embaixada do Líbano: http://www.libano.org.br/olibano_geografia.htm

População de emigrantes: 14 milhões (dentre os quais cerca de 7 milhões estão no Brasil).

Nos outros dois casos, entretanto, as embaixadas da Alemanha e da Polônia não parecem ser a referência. Para o número de alemães, a origem dos “dados” é um certo Dieter Böhnke, que aparece citado pelo Deutsche Welle como alguém que, além de estimar, através de métodos ignorados, a proporção de descendentes de alemães na população brasileira em 10%, data a “presença” alemã no Brasil da própria expedição de Pedro Álvares Cabral, cujo cozinheiro seria alemão… ao passo que os consulados alemães no Brasil divulgam estimativas muitíssimo mais sóbrias: http://www.porto-alegre.diplo.de/Vertretung/portoalegre/pt/Startseite.html: “Seu objetivo é o fomento das relacões políticas, econômicas, culturais e sociais entre o Brasil e a Alemanha, bem como a preservação da língua e da cultura de mais de três milhões de descendentes de imigrantes alemães que vivem em seus territórios.”

Para o número de poloneses, em contrapartida, a fonte que citamos acima fornece uma verdadeira memória de cálculo, que vale a pena citar por extenso:

CRESCIMENTO POPULACIONAL DOS POLONESES NO BRASIL ATÉ 1970.
De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o crescimento demográfico da população brasileira se mantém numa média de 2,5% ao ano. Desde o início da imigração polonesa a taxa de crescimento entre eles estava acima deste índice de acordo com pesquisa de Michal Sekula, pois ele diz que o crescimento da população polonesa e seus descendentes estava acima dos 25% para cada 10 anos. Para efeitos dos números a seguir manteremos a taxa em 2,5% apresentando o crescimento populacional dos descendentes poloneses, por estado, até o ano de 1970.
Rio Grande do Sul :
Até 1880 vieram 700 pessoas Crescimento natural entre 1880 a 1886 = 105 pessoas
Até 1886 vieram mais 600 pessoas. Crescimento natural entre 1886 a 1894 = 280 pessoas
Até 1894 vieram mais 25 000 pessoas Crescimento natural entre 1894 a 1904 = 6 670 pessoas Vieram nessa época = 5 600 pessoas Crescimento natural entre 1904 a 1915 = 10 710 pessoas
Vieram nessa época = 7 000 pessoas. Crescimento natural entre 1915 e 1935 = 31 865 pessoas Vieram nessa época 7 000 pessoas Crescimento natural entre 1935 a 1939 = 13.700 pessoas Vieram nessa época = 5 690 pessoas Crescimento natural entre 1939 a 1945 = 28 730 pessoas Crescimento natural entre 1945 a 1955 = 35 900 pessoas Crescimento natural entre 1955 a 1965 = 44 880 pessoas Crescimento natural entre 1965 a 1970 = 28 500 pessoas
Vieram após a 2ª guerra = 3 270 pessoas
Total geral no estado do Rio Grande do Sul até1970 = 256 200 pessoas.
Paraná:
Em 1889 havia no Paraná = 11 000 pessoas
Vieram entre 1889 a 1894 = 15 000 pessoas Crescimento natural entre 1894 a 1900 = 3 900 pessoas Vieram nessa época = 6 100 pessoas Crescimento natural entre 1900 a 1910 = 9 000 pessoas Vieram nessa época = 6 000 pessoas Crescimento natural entre 1910 e 1915 = 6 375 pessoas Vieram nessa época = 14 730 pessoas Crescimento natural entre 1915 e 1925 = 18 025 pessoas Vieram nessa época = 2 845 pessoas Crescimento natural entre 1925 a 1935 = 23 240 pessoas Vieram nessa época = 16 000 pessoas Crescimento natural entre 1935 a 1945 = 33 050
Vieram entre 1935 a 1939 = 4 000 pessoas Crescimento natural entre 1945 a 1955 = 42 315 pessoas Vieram após a 2ª guerra = 7 000 pessoas Crescimento natural entre 1955 a 1965 = 54 640 pessoa
Crescimento natural entre 1965 a 1970 = 34 150 pessoas
Total geral no crescimento do Paraná até1970 = 307 370 pessoas
São Paulo e outros estados ao norte de São Paulo

Até 1914 havia 33 000 pessoas Crescimento natural entre 1914 a 1930 = 14 400 pessoas Vieram entre 1920 a 1930 = 15 000 pessoas Crescimento natural entre 1930 a 1940 = 15 600
Vieram entre 1930 a 1940 = 12 000 Crescimento natural entre 1940 a 1970 = 85 820
Vieram entre 1940 a 1970 = 14 500
Total geral até1970 = 190 320 pessoas
Santa Catarina (De acordo com escritos de Ruy Wachowicz )

Em 1934 havia 31 000 pessoas
Poloneses espalhados pelo estado = 3 000 pessoas Crescimento natural entre 1934 a 1950 = 14 875 pessoas
Crescimento natural entre 1950 a 1970 = 24 490 pessoas
Vieram entre 1934 e 1970 = 12635 pessoas
Total geral em Santa catarina até1970 = 89 000 pessoas
Se somarmos todos os imigrantes poloneses e seus descendentes até o ano de 1970, tínhamos um total aproximado de 842.890 pessoas. Considerando que a taxa de crescimento populacional teve um pequeno decréscimo nos últimos 30 anos e tomando por base a taxa de 20% para cada dez anos chegamos no ano 2000 com um total de 1.456.513 descendentes de poloneses espalhados pelo Brasil.
Evidentemente, essa metodologia não é perfeita; uma série de pressuposições é admitida sem maiores discussões (a taxa de crescimento demográfico da população de origem polonesa é dada como igual à do restante da população, a taxa de retorno e reemigração dos imigrantes poloneses é dada como nula, o final de cada período é tomado como data de chegada de todos os imigrantes daquele mesmo período). Entretanto, pelo menos temos um método para criticar, em vez de uma afirmação peremptória aparentemente recebida dos céus como as tábuas da Lei.

Ao contrário, as “estimativas” do número de descendentes de italianos, espanhóis e árabes se escoram exclusivamente num argumento de autoridade: se as embaixadas disseram, deve ser verdade, uma vez que embaixadas não mentem…

Entretanto, embaixadas não são órgãos de pesquisa demográfica, não coletam dados e não possuem equipes capazes de interpretá-los. Se esses dados foram efetivamente coletados e interpretados, o foram por outros organismos. Mas neste caso não se percebe por que as embaixadas não os citariam. A impressão que se tem é que as embaixadas foram vítimas do processo de difusão de dados inverificáveis, antes de se tornarem elas mesmas partes desse processo. Alguém na embaixada precisou de um cálculo rápido a respeito do número de cidadãos brasileiros etnicamente ligados ao país representado pela embaixada. Como não há dados confiáveis, os funcionários responsáveis simplesmente coletaram os dados disponíveis na internet, sem questioná-los. A partir daí, entretanto, a difusão dos “dados” passou a ser respaldada pela autoridade da embaixada.

Esse parece ser o motivo pelo qual as “estimativas” do número de descendentes de italianos ou de espanhóis variam menos, sendo sempre próximas a 25 milhões para os italianos e 15 milhões para os espanhóis. No caso dos árabes, essa fixação não ocorre, e os números variam muito, de 10 a 15 milhões, provavelmente porque a Embaixada do Líbano não representa todos os árabes. Aliás, os dois sites abaixo demonstram como a pluralidade de Estados nacionais correspondentes à etnia árabe interfere nos cálculos:

http://oglobo.globo.com/mundo/mat/2006/08/17/285309299.asp

http://pt.wikipedia.org/wiki/Imigra%C3%A7%C3%A3o_%C3%A1rabe_no_Brasil

O primeiro afirma que os descendentes de libaneses são cerca de seis milhões, e que o total de descendentes de árabes (considerados os sírios, jordanianos, palestinos, etc.) é de oito milhões. O segundo, citando o primeiro, soma seis com oito, para chegar, com liberalidade, a um total de quinze milhões de descendentes de árabes no Brasil.

Trata-se, ao que tudo indica, do fenômeno bem conhecido do “telefone sem fio”, ou “quem conta um conto aumenta um ponto”, potencializado pela tecnologia da internet. No caso de italianos e espanhóis, o aumento dos pontos foi interrompido pelo aspecto oficial que os números tomaram ao serem respaldados pelas embaixadas. No caso dos árabes, não, porque não há uma embaixada árabe única para “congelar” os dados.

Resta ver o caso dos alemães, em que a embaixada não parece fazer parte do processo de multiplicação dos descendentes, e o caso dos poloneses, em que a multiplicação parece simplesmente não acontecer. Nossa hipótese é que o número divulgado pelo consulado alemão é insuficiente para a fantasia que embasa esse processo, e que o número de poloneses é irrelevante para ela.

O problema subjacente a tudo isso, naturalmente, é o fato de praticamente inexistirem estatísticas confiáveis a respeito da questão. O IBGE praticamente não pesquisa mais esse tipo de informação, e as poucas outras fontes confiáveis de que dispomos cobrem apenas segmentos muito particulares da população.

Entretanto, esses são os dados reais de que dispomos, e será necessário trabalhar com eles.

Eles são,

1. os dados de ingresso de imigrantes no Brasil;
2. os dados de população estrangeira dos censos de 1872, 1920, 1940, 1950, 1960 e 1970 (que, infelizmente, não são apresentados sempre da mesma maneira, e, com a parcial exceção do censo de 1940, incluem apenas os imigrantes, naturalizados ou não, e omitem os seus descendentes);
3. Estudos, como os de Judicael Clevelário e Maria Stella Levy, a respeito da importância da imigração para o crescimento populacional brasileiro;
4. os dados da Pesquisa Mensal de Emprego de julho de 1998, a única pesquisa do IBGE a investigar de fato a origem étnica dos brasileiros (que abrangeu, como é tradição das PMEs, apenas algumas áreas metropolitanas, e cujos dados completos não são de fácil acesso);
5. os dados de diversos censos étnicos realizados por universidades públicas (em geral em relação com a questão das cotas raciais), os quais, naturalmente, se referem apenas a uma parcela muito reduzida e não de todo representativa da população (excluindo, naturalmente, as camadas mais empobrecidas, o que, infelizmente, significa também excluir uma parcela mais que proporcional da população não-branca).

Cada um desses conjuntos de dados é totalmente incompatível com os dados fantasiosos que encontramos na internet. Vejamos o que eles têm a nos dizer, e, sobretudo, se eles são compatíveis entre si.

OS DADOS DE ENTRADA DE IMIGRANTES NO BRASIL

O IBGE apresenta dados da imigração agrupados por décadas, cobrindo o período de 1884 a 1959:

Imigração para o Brasil, por nacionalidade - períodos decenais 1884-1893 a 1924-1933
Efetivos decenais
Nacionalidade 1884-1893 1894-1903 1904-1913 1914-1923 1924-1933 1945-1949 1950-1954 1955-1959 Total
Alemães 22778 6698 33859 29339 61723 5188 12204 4633 176422
Espanhóis 113116 102142 224672 94779 52405 4092 53357 38819 683382
Italianos 510533 537784 196521 86320 70177 15312 59785 31263 1507695
Japoneses - - 11868 20398 110191 12 5447 28819 176735
Portugueses 170621 155542 384672 201252 233650 26268 123082 96811 1391898
Sírios e turcos 96 7124 45803 20400 20400 * * * 93823
Outros 66524 42820 109222 51493 164586 29552 84851 47599 596647
Total 883668 852110 1006617 503981 717223 80424 338726 247944 4630693

*Após 1945, “Sírios e turcos” estão incluídos em “Outros”.

O que salta aos olhos, imediatamente, é que a imigração árabe para o Brasil é consideravelmente menor do que a alemã, portuguesa, espanhola e italiana. Na verdade, é difícil imaginar como a população de descendentes de árabes no Brasil poderia ser três vezes maior que a de alemães, quase igual à de espanhóis, ou metade da de italianos, quando o ingresso de imigrantes árabes no Brasil, ainda que certamente maior que os 93.823 anotados acima (uma vez que alguns dos imigrantes na categoria “Outros”, após 1945, certamente eram árabes), é menor que o de alemães, menos de uma quarta parte dos espanhóis, e menos de um décimo dos italianos. A ser verdadeira, a suposta população de descendentes de árabes no Brasil teria de ser cerca de 300% mais prolífica que a dos demais brasileiros.

Da mesma forma, ao passo que os dados fornecidos pelo Consulado Alemão em Porto Alegre não parecem discrepantes, a cifra atribuída a Dieter Böhnke não faz sentido. Embora o número de imigrantes alemães na tabela acima esteja sem dúvida incompleto – a imigração alemã começou consideravelmente mais cedo – não há possibilidade de que os descendentes de alemães no Brasil sejam mais numerosos que os de italianos ou espanhóis.

Para tentar precisar um pouco melhor o quadro, vamos incluir os imigrantes anteriores a 1884. Para isto, vamos nos valer dos dados do IBGE como organizados por Maria Stella Ferreira Levy (1974).

Ela nos fornece os seguintes dados para o período anterior a 1884:

1820-1876:
Portugueses: 160.119
Italianos: 16.562
Espanhóis: 2.901
Alemães: 45.419
Outros: 125.116

1877-1886:

Portugueses: 83.998
Italianos: 132.153
Espanhóis: 15.715
Alemães: 20.936
Outros: 20.360

Aqui temos um problema, pois ocorre uma superposição destes dados (1877-1886) com os que listamos anteriormente (1884-1893). Mas o trabalho de Levy nos dá também os dados anuais para 1884, 1885 e 1886. Somando estes anos, temos:

Portugueses: 22.581
Italianos: 52.697
Espanhóis: 3.279
Alemães: 6.681
Outros: 5.710

O que nos permite calcular os dados para 1877-1883:

Portugueses: 61.417
Italianos: 79.456
Espanhóis: 12.436
Alemães: 14.255
Outros: 14.650

Levy também nos fornece dados para o período 1934-1944:

Portugueses: 76.053
Italianos: 11.435
Espanhóis: 5.214
Alemães: 17.862
Japoneses: 46.158
Outros: 42.109

E para os períodos posteriores a 1959, até 1972:

O que nos proporciona um quadro razoavelmente completo da imigração para o Brasil, de 1820 a 1972:

Imigração para o Brasil, por nacionalidade - 1820 a 1972
Nacionalidade
Efetivos decenais Alemães Espanhóis Italianos Japoneses Portugueses Sírios e turcos Outros Total
1820-1876 45419 2901 16562 - 160119 - 125116 350117
1887-1883 14255 12436 79456 - 61417 - 14650 883668
1884-1893 22778 113116 510533 - 170621 96 66524 883668
1894-1903 6698 102142 537784 - 155542 7124 42820 852110
1904-1913 33859 224672 196521 11868 384672 45803 109222 1006617
1914-1923 29339 94779 86320 20398 201252 20400 51493 503981
1924-1933 61723 52405 70177 110191 233650 20400 164586 717223
1934-1944 17862 5214 11435 46158 76053 * 42109 198831
1945-1949 5188 4092 15312 12 26268 * 29552 80424
1950-1954 12204 53357 59785 5447 123082 * 84851 338726
1955-1959 4633 38819 31263 28819 96811 * 47599 247944
1960-1969 5659 28397 12414 25092 74129 * 51896 197587
1970-1972 1050 949 804 695 3073 * 9017 15588
Total 260667 733279 1628366 248680 1766689 93823 839435 5570939

Comparemos estes dados com os números que circulam na internet:

imigrantes população atual
total italianos=100 total italianos=100 imigrantes=100
Alemães 260667 16,01 18000000 72 6905,36
Espanhóis 733279 45,03 15000000 60 2045,61
Italianos 1628366 100,00 25000000 100 1535,28
Sírios e turcos 93823 5,76 12000000 48 12790,04
Total 5570939 342,12 70000000 280 1256,52

Torna-se evidente que, no mínimo, a suposta população de descendentes de árabes (em, grau menor, de alemães) no Brasil é exagerada. Se, entretanto, tomarmos os números de descendentes de alemães divulgados pelos Consulados alemães, teremos que eles são razoavelmente compatíves com os da suposta população de descendentes de italianos no Brasil, se lembrarmos que, embora tenham vindo muito menos alemães do que italianos para o Brasil, os alemães chegaram consideravelmente mais cedo:

imigrantes população atual
total italianos=100 total italianos=100 imigrantes=100
Alemães 260667 16,01 5000000 20 1918,16
Italianos 1628366 100,00 25000000 100 1535,28

Assim, até agora teríamos identificado duas situações diferentes:

1) Os dados das embaixadas italiana e espanhola, bem como os dos consulados alemães, que parecem compatíveis entre si;
2) Os dados da embaixada e libanesa e de Dieter Böhnke, que não são compatíveis entre si nem com os do grupo 1).

Evidentemente, há duas causas possíveis para isso: ou os dados de Böhnke e da Embaixada libanesa estão errados, ou os dados da entrada de imigrantes é que estão equivocados. Daí a importância de verificar a compatibilidade dos dados de entrada de imigrantes com outras fontes.

A POPULAÇÃO ESTRANGEIRA NOS CENSOS

Para poder comparar os dados sobre a população estrangeira nos diversos censos com os dados de entrada de imigrantes, é preciso reorganizar as tabelas anteriores de maneira que a sua periodização coincida com a do Recenseamento. É o que fazemos a seguir:

Imigração para o Brasil, por nacionalidade
Nacionalidade
Efetivos decenais Alemães Espanhóis Italianos Japoneses Portugueses Outros Total
1820-1872 38043 2099 8566 - 141052 89612 411858
1872-1890 33226 33458 322591 - 159717 75967 624959
1890-1900 17084 164293 690365 - 219353 107232 1198327
1900-1910 13848 113232 221394 861 195586 77486 622407
1910-1920 25902 181651 138168 27432 318481 123819 815453
1920-1930 75801 81931 106835 58284 301915 221881 846647
1930-1940 27497 12746 22170 99222 102743 68390 332768
1940-1950 6807 4702 15819 2828 45604 38325 114085
1950-1960 16643 94693 91931 33593 241579 104629 583068
1960-1970 5659 28397 12414 25092 74129 51896 197587
1970-1972 1050 949 804 695 3073 9017 15588
Total 261560 718151 1763543 248007 1803232 968254 5762747

Também é conveniente dispormos dos mesmos dados, apresentados de forma cumulativa:

Imigração para o Brasil, por nacionalidade - cumulativo
Nacionalidade
Efetivos decenais Alemães Espanhóis Italianos Japoneses Portugueses Outros Total
até 1872 38043 2099 8566 - 141052 89612 411858
até 1890 71269 35557 463643 - 300769 165579 1036817
até 1900 88353 199850 1154008 - 520122 272811 2235144
até 1910 102201 313082 1375402 861 715708 350297 2857551
até 1920 128103 494733 1513570 28293 1034189 474116 3673004
até 1930 203904 576664 1620405 86577 1336104 695997 4519651
até 1940 231401 589410 1642575 185799 1438847 764387 4852419
até 1950 238208 594112 1658394 188627 1484451 802712 4966504
até 1960 254851 688805 1750325 222220 1726030 907341 5549572
até 1970 260510 717202 1762739 247312 1800159 959237 5747159
até 1972 261560 718151 1763543 248007 1803232 968254 5762747

Agora podemos contrastar esse dados com os da população estrangeira nos diversos censos:

estrangeiros e brasileiros naturalizados
censo portugueses italianos espanhóis alemães japoneses árabes outros total
1872* 118.246 5.558 3.145 44.083 11 4 22.448 193.495
1890
1900
1920 433.577 558.405 219.142 52.870 27.976 50.251 273.991 1.616.212
1940 380.316 325.283 160.551 97.091 144.523 51.652 246.926 1.406.342
1950 336.837 242.279 131.600 65.798 129.192 45.460 262.808 1.213.974
1960** 431.047 187.377 144.083 52.161 149.138 40.989 247.672 1.252.467
1970 437.983 152.801 130.122 51.728 154.000 43.908 258.580 1.229.122
  • Os dados para 1872 não incluem 188.542 africanos, que aqui não consideramos imigrantes.

** Os dados para 1960 não incluem os naturalizados.

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